No sorriso o sal

E que me andavas tão esquecida, e sempre me andas, e sempre me voltas com todas as forças e as vontades e os desejos. Se, diga de passagem, eu gosto de observar o teu nome, escrito em todos os lugares, me brilhando toda hora. É, teu nome brilha. Eu, que nem mais precisava de horas, te vi por um segundo e reconheci à queima-roupa. Eu sorri, porque eu poderia te ver dormir por tanto tempo, só por sorrir…

“Eu apenas queria que você soubesse que aquela alegria ainda está comigo…” ♫

But my smile still stays on

Eu sempre fui assim, sempre fui calada, não gostava de falar com as pessoas, de olhar nos olhos, de tocar em ninguém, tudo que eu sempre quis foi continuar assim. Um dia, bom, um dia eu percebi que isso não era muito certo, que as pessoas ao meu redor também poderiam ser qualquer coisa mais próxima, no fundo, eu via as pessoas com seus amigos e me sentia mal por não ter os meus. Desde que eu vi que poderia ser melhor eu tentei, até hoje eu tento mudar.

O que eu tenho a dizer? Bom, eu achei que fosse perder a personalidade, foi quando eu vi que isso não existia, independente de quantos anos já tenham se passado desde que eu decidi mudar, eu não consigo manter longas conversas pessoalmente, eu tenho dificuldades em olhar nos olhos, eu tenho medo de demonstrar emoções, odeio minhas fraquezas e me sinto a pior pessoa do mundo quando me vêem chorar.

Mas, eu não sei, talvez as pessoas tenham se acostumado com uma pessoa no canto que aceita as coisas numa boa, né? Eu sei, eu sei o quanto todos os que me dizem pra mudar me amam, eu sei que se preocupam e que só querem o meu bem, é, foda-se, eu sei de tudo isso. Só que eles não sabem, nenhum deles sabe o quanto eu tenho tentado mudar nos últimos vários anos, o quanto me dói falar com alguém que eu não conheço, o quanto me arde nos olhos ter que sorrir pra alguém que eu não falo. Desculpa, eu não sou assim.

Mas tudo bem, eu sempre fui otimista o suficiente pra acreditar que mesmo as pessoas não entendendo nada do que se passa em mim e mesmo que eu consiga um dia mudar, bom, sempre tentaria levar isso numa boa, mas ultimamente tudo que ouço de todos os lados é do quanto eu estou errada, do quanto eu sou irresponsável, de não saber fazer as coisas, e o pior? Que eu tenho que mudar!

É, tudo bem, eu sei que ninguém sabe, tento entender, como sempre fiz, mas, de verdade, eu cansei de esmigalhar o meu orgulho, de jogar fora o meu egoísmo, e fiz isso por cada um que eu conheço e que poderia conhecer. Eu tentei tanto.

Desculpem-me, mas eu não vou me fazer de frágil nem vou dizer que estou magoada pra alguém perceber o quanto tem uma pessoa aqui dentro, isso é algo que cada um deveria aprender em casa, ou olhando as pessoas, sei lá, eu aprendi sozinha a ter respeito por cada um, se virem!

Tudo bem, não me perguntem se eu estou bem, é verdade, eu estou bem, estou ótima. Mas, por favor, parem de me pedir pra mudar, eu sei o quanto eu estou tentando, não é de hoje, nem questão de um ou dois anos, são muitos muitos mais. Digam-me onde estou errada, me mostrem onde o que eu sou ou como eu ajo me faz mal, porque, até agora, só o que tem me machucado, mesmo, é continuar tentando mudar.

What kind of heart would break so easy as my own?

Ontem foi a última reunião Teletubbie desse semestre, com certeza. Agora dói um pouco mais de lembrar, é incrível como na nossa cabeça as coisas sempre parecem mais dramáticas do que realmente são, mesmo elas sendo.

Foi como um dia normal, ir pra casa do amigo psicólogo, jogar dadinho, comer muito, depois sentar e ter uma DR. Sempre assim. Mesmo eu sendo um dos grandes focos de “toma cuidado” dos últimos tempos, é sempre bom. Dessa vez, dessa vez me deixou pensando… De repente surgiu a idéia de explanar os defeitos de cada Teletubbie, e o meu? Bom, o meu é “dar moral demais” pras pessoas que eu nem conheço. Eu fiquei muito tempo tentando descobrir o que era “dar moral” e então me explicaram melhor: “porque tu fazes com que as pessoas se sintam únicas pelo jeito que falas com elas, e elas podem confundir isso”. Bom, isso é “dar moral”.

Então cheguei em casa, já de manhã, e fiquei raciocinando um pouco sobre isso, porque, enfim, quando seus melhores amigos dizem que você tem um defeito, o mínimo que se pode fazer é tentar mudar, né? Depois de um tempinho eu cheguei à conclusão… mas isso era pra ser uma coisa boa, não? Tirando a parte que as pessoas sempre acabam confundindo os meus sentimentos por elas; eu realmente gosto de fazer com que se sintam únicas, especiais, eu trato as pessoas assim porque acho importante que elas se sintam assim, gosto de ser o ‘alguém que se preocupe’.

O conselho que me deram pra tentar melhorar foi algo como “nem todo mundo pensa assim, e podes te foder numa dessas”. Mas eu pensei melhor… Porque eu que tenho que mudar meu pensamento? O que eu penso não é ruim, eu acho que não pelo menos… Então porque as pessoas, sempre desconfiadas, sempre com pé atrás, que não mudam o pensamento delas e se abrem pra pessoas que só querem… ajudar.

É triste, eu sei que a maioria das pessoas hoje só querem se aproveitar umas das outras, já não se conhecem pensando em amizades, se conhecem pensando em carne e excessos. Eu não quero isso, eu só queria, de verdade, que as pessoas se sentissem bem, e isso não é tão errado quanto parece. Será que isso soa tão inocente e estúpido assim? Será que eu tenho que mudar de lado, mudar de pensamento, mudar meu jeito pra deixar de ser uma minoria?

Enfim, a reunião Teletubbie terminou como quase qualquer outro dia, ligando pro Seu Paysandu, sempre. Mes depois, depois bateu uma nostalgia que Dipsy, Pô e Tinky Winky foram até o deserto passado só pra rever algumas pessoas e ter certeza que aquilo acabou e que… nada mudou na vida daquelas pessoas, ainda estão lá, indo pra aula todos os dias, obedecendo os pais. Foi só a nossa vida que virou de cabeça pra baixo? Eu não quero mais o que era antes, mas o hoje podia ser bem melhor, sempre podia… Não queria que ela fosse embora…

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